Mandetta foi o menos pior em meio ao caos

Enfrentando Bolsonaro em tempos de pandemia, o médico ortopedista teve a oportunidade de se opor em um governo de pouco-caso.

Mandetta em entrevista coletiva no dia 2 de abril de 2020 / Créditos: Isac Nóbrega / Agência Brasil
por Wallacy Ferrari

Quando Jair Bolsonaro foi eleito, em outubro de 2018, foi um dos poucos presidentes da história do Brasil que não fez questão de apresentar ao menos 50% de seus possíveis ministros em sua campanha ou plano de governo. Em 13 de novembro do mesmo ano, revelou, após a decisão eleitoral, quem seria o nome de uma das pastas mais importantes para o funcionamento de uma sociedade: a Saúde.

Então deputado federal, eleito pelo Democratas do Mato Grosso do Sul, o médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta foi o nome de confiança para “tapar os ralos que existem”, de acordo com uma entrevista de Bolsonaro na porta de seu quimérico condomínio. Na época com 54 anos, Mandetta foi convidado com uma condição explicitamente imposta por Jair: “Não tem como investir mais na saúde, já estamos no limite dos gastos em todas as áreas”.

Antes de qualquer ação política, vale lembrar que Mandetta tem uma característica comum com Bolsonaro; seus parentes estão espalhados pelas câmaras do país. Primo da família Trad — senador Nelsinho; deputado federal Fábio; prefeito de Campo Grande Marquinhos — também tem um histórico militar, onde se tornou 1º tenente no Hospital Central do Exército. Se antes o nepotismo e a militarização fossem pautas que unissem o presidente e o ministro, suas opiniões agregavam ainda mais a admiração mútua.

Em 2013, durante sua estadia na Câmara dos Deputados, fez questão de liderar um pesado lobby parlamentarista contra o programa Mais Médicos, durante o governo de Dilma Rousseff (PT). Seu conservadorismo o transformou também em uma peça chave durante o golpe político que articulou o impeachment da mesma, em 2015, sempre fazendo questão de externar seu catolicismo e deixando claro que estava na direita. Quando não previa ser um dos homens mais importantes da gestão do país, tinha uma postura igual a de Bolsonaro: pouco se importava com a empatia em seus discursos.

TROCANDO DE LADO?

Quando se tornou um opositor notável contra o programa Mais Médicos, chegou a dizer em um texto, publicado em seu site, que se tratava de um programa “muito eleitoreiro”, usado como “peça de marketing” e que o convênio estatal com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) fazia com que as viagens de médicos cubanos ao Brasil fossem o equivalente a um “navio negreiro do século XXI”. Com a pandemia, queimou a língua.

Em março, viu o Brasil ser atingido pelo COVID-19 e obrigado a recorrer à alguma medida para amparar um crescimento semelhante aos de países que tiveram crises ainda maiores em decorrência dos efeitos do novo coronavírus. Restou a ele a boa relação de governos anteriores com a OPAS para reabrir um edital reconvocando, justamente, médicos cubanos que foram dispensados por Bolsonaro logo no início de seu governo. Contrariando o presidente, fez questão, pela primeira vez em um ano e alguns meses, de colocar a saúde pública na frente da política para o exercício do cargo.

Desde então, vem tendo uma acrescida popularidade, contrastando com a gradativa rejeição obtida pelo presidente. Sem perder o discurso forte, Mandetta teve características sofistas quando fez questão de manter uma fala mansa com o seu chefe, mas se portando como um chefe de estado no que se referia a sua pasta. Assim, brincou em situações sérias e se aproveitou da imagem de figuras públicas para parecer uma opção — até melhor do que a que o colocou dentro da Esplanada dos Ministérios. “O maior predicado que eu tive para enfrentar essa crise foi ser torcedor do Botafogo. Ser botafoguense é um eterno gerenciamento de crise”, afirmou Mandetta durante uma coletiva de imprensa, um pouco antes de sua demissão.

No auge da maior crise de sua carreira médica e executiva, utilizou o palanque federal para mandar beijos e abraços para a Marília Mendonça e a dupla Jorge & Mateus, assim como Bolsonaro, que fortaleceu com o apoio de sertanejos durante sua campanha. A impressão que ficou é a de que, no meio de uma pandemia, o ministro da Saúde ainda tinha a necessidade de ‘sair bem na fita’. Jair não poderia deixar barato. Por um lado, seria vantajoso a nação pensar que o presidente teve interesse em dispensar Mandetta pelo fato do mesmo alavancar sua condição de figura pública durante uma pandemia.

No entanto, a relutante decisão se parece mais com um time de futebol que apresenta um bom trabalho, mas com conflitos entre a diretoria e comissão técnica. O trabalho de Mandetta ao defender o isolamento horizontal, orientando o máximo de distanciamento físico e estimulando o lockdown, foi diretamente alinhado com as orientações da Organização Mundial da Saúde e de outros diversos epidemiologistas, porém, não condiz com o isolamento vertical — apoiado por Bolsonaro — que orienta apenas o distanciamento parcial, priorizando membros do grupo de risco. A infectologista Maria Luiza Brussi explicou que as orientações de Mandetta foram corretas devido ao crescimento de casos no país: “É o mais eficiente para combater a pandemia, até porque não temos conhecimento completo desse novo coronavírus para compreender até que ponto podemos conviver com ele. A única garantia seria isolar o máximo de pessoas possível”, afirmou Brussi.

Seu papel de médico foi justo durante as poucas vezes que foi acionado, mas não respeitou as decisões de um líder eleito por uma maioria. Quando Bolsonaro fez questão de externar incômodo com a maneira que o ministro tratou o isolamento, Mandetta não fez questão de se alinhar ao governo; do contrário, preferiu respeitar a recomendação médica. Conforme divulgado pela CNN Brasil, Onyx Lorenzoni, braço-direito do presidente e ministro da Cidadania, chegou a dizer em uma conversa com Osmar Terra que “[Mandetta] não tem compromisso com nada que Bolsonaro está fazendo”. Osmar, que era um dos nomes cotados para assumir a pasta da saúde, retruca: “O ideal era o Mandetta se adaptar ao discurso do Bolsonaro”. 

Preferiu se adaptar ao discurso médico e buscou alianças regionais e legislativas — conversou com David Uip, aliado de João Dória e coordenador do centro de Contingência do Coronavírus do governo no Estado de São Paulo; e com o presidente da Câmara e também botafoguense Rodrigo Maia — atiçando o presidente ao buscar caminhos para discutir soluções, inclusive com opositores. Acabou sendo demitido do cargo em 16 de abril, provando que nem mesmo um homem de confiança do presidente tem a confiança do presidente.