por Wallacy Ferrari
Quando Jair Bolsonaro foi eleito, em outubro de 2018, foi um dos poucos presidentes da história do Brasil que não fez questão de apresentar ao menos 50% de seus possíveis ministros em sua campanha ou plano de governo. Em 13 de novembro do mesmo ano, revelou, após a decisão eleitoral, quem seria o nome de uma das pastas mais importantes para o funcionamento de uma sociedade: a Saúde.
Quando Jair Bolsonaro foi eleito, em outubro de 2018, foi um dos poucos presidentes da história do Brasil que não fez questão de apresentar ao menos 50% de seus possíveis ministros em sua campanha ou plano de governo. Em 13 de novembro do mesmo ano, revelou, após a decisão eleitoral, quem seria o nome de uma das pastas mais importantes para o funcionamento de uma sociedade: a Saúde.
Então deputado federal, eleito pelo Democratas do Mato
Grosso do Sul, o médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta foi o nome de
confiança para “tapar os ralos que existem”, de acordo com uma entrevista de
Bolsonaro na porta de seu quimérico condomínio. Na época com 54 anos, Mandetta
foi convidado com uma condição explicitamente imposta por Jair: “Não tem como
investir mais na saúde, já estamos no limite dos gastos em todas as áreas”.
Antes de qualquer ação política, vale lembrar que Mandetta
tem uma característica comum com Bolsonaro; seus parentes estão espalhados
pelas câmaras do país. Primo da família Trad — senador Nelsinho; deputado
federal Fábio; prefeito de Campo Grande Marquinhos — também tem um histórico
militar, onde se tornou 1º tenente no Hospital Central do Exército. Se antes o
nepotismo e a militarização fossem pautas que unissem o presidente e o
ministro, suas opiniões agregavam ainda mais a admiração mútua.
Em 2013, durante sua estadia na Câmara dos Deputados, fez
questão de liderar um pesado lobby parlamentarista contra o programa Mais Médicos,
durante o governo de Dilma Rousseff (PT). Seu conservadorismo o transformou
também em uma peça chave durante o golpe político que articulou o impeachment
da mesma, em 2015, sempre fazendo questão de externar seu catolicismo e
deixando claro que estava na direita. Quando não previa ser um dos homens mais
importantes da gestão do país, tinha uma postura igual a de Bolsonaro: pouco se
importava com a empatia em seus discursos.
TROCANDO DE LADO?
Quando se tornou um opositor notável contra o programa Mais
Médicos, chegou a dizer em um texto, publicado em seu site, que se tratava de
um programa “muito eleitoreiro”, usado como “peça de marketing” e que o
convênio estatal com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) fazia com que
as viagens de médicos cubanos ao Brasil fossem o equivalente a um “navio
negreiro do século XXI”. Com a pandemia, queimou a língua.
Em março, viu o Brasil ser atingido pelo COVID-19 e
obrigado a recorrer à alguma medida para amparar um crescimento semelhante aos
de países que tiveram crises ainda maiores em decorrência dos efeitos do novo
coronavírus. Restou a ele a boa relação de governos anteriores com a OPAS para
reabrir um edital reconvocando, justamente, médicos cubanos que foram
dispensados por Bolsonaro logo no início de seu governo. Contrariando o
presidente, fez questão, pela primeira vez em um ano e alguns meses, de colocar
a saúde pública na frente da política para o exercício do cargo.
Desde então, vem tendo uma acrescida popularidade,
contrastando com a gradativa rejeição obtida pelo presidente. Sem perder o
discurso forte, Mandetta teve características sofistas quando fez questão de
manter uma fala mansa com o seu chefe, mas se portando como um chefe de estado
no que se referia a sua pasta. Assim, brincou em situações sérias e se
aproveitou da imagem de figuras públicas para parecer uma opção — até melhor do
que a que o colocou dentro da Esplanada dos Ministérios. “O maior predicado que
eu tive para enfrentar essa crise foi ser torcedor do Botafogo. Ser
botafoguense é um eterno gerenciamento de crise”, afirmou Mandetta durante uma
coletiva de imprensa, um pouco antes de sua demissão.
No auge da maior crise de sua carreira médica e executiva,
utilizou o palanque federal para mandar beijos e abraços para a Marília
Mendonça e a dupla Jorge & Mateus, assim como Bolsonaro, que fortaleceu com
o apoio de sertanejos durante sua campanha. A impressão que ficou é a de que,
no meio de uma pandemia, o ministro da Saúde ainda tinha a necessidade de ‘sair
bem na fita’. Jair não poderia deixar barato. Por um lado, seria vantajoso a
nação pensar que o presidente teve interesse em dispensar Mandetta pelo fato do
mesmo alavancar sua condição de figura pública durante uma pandemia.
No entanto, a relutante decisão se parece mais com um time
de futebol que apresenta um bom trabalho, mas com conflitos entre a diretoria e
comissão técnica. O trabalho de Mandetta ao defender o isolamento horizontal,
orientando o máximo de distanciamento físico e estimulando o lockdown, foi diretamente alinhado com
as orientações da Organização Mundial da Saúde e de outros diversos
epidemiologistas, porém, não condiz com o isolamento vertical — apoiado por
Bolsonaro — que orienta apenas o distanciamento parcial, priorizando membros do
grupo de risco. A infectologista Maria Luiza Brussi explicou que as orientações
de Mandetta foram corretas devido ao crescimento de casos no país: “É o mais
eficiente para combater a pandemia, até porque não temos conhecimento completo
desse novo coronavírus para compreender até que ponto podemos conviver com ele.
A única garantia seria isolar o máximo de pessoas possível”, afirmou Brussi.
Seu papel de médico foi justo durante as poucas vezes que
foi acionado, mas não respeitou as decisões de um líder eleito por uma maioria.
Quando Bolsonaro fez questão de externar incômodo com a maneira que o ministro
tratou o isolamento, Mandetta não fez questão de se alinhar ao governo; do
contrário, preferiu respeitar a recomendação médica. Conforme divulgado pela
CNN Brasil, Onyx Lorenzoni, braço-direito do presidente e ministro da
Cidadania, chegou a dizer em uma conversa com Osmar Terra que “[Mandetta] não
tem compromisso com nada que Bolsonaro está fazendo”. Osmar, que era um dos
nomes cotados para assumir a pasta da saúde, retruca: “O ideal era o Mandetta
se adaptar ao discurso do Bolsonaro”.
Preferiu se adaptar ao discurso médico e buscou alianças regionais e legislativas — conversou com David Uip, aliado de João Dória e coordenador do centro de Contingência do Coronavírus do governo no Estado de São Paulo; e com o presidente da Câmara e também botafoguense Rodrigo Maia — atiçando o presidente ao buscar caminhos para discutir soluções, inclusive com opositores. Acabou sendo demitido do cargo em 16 de abril, provando que nem mesmo um homem de confiança do presidente tem a confiança do presidente.
Preferiu se adaptar ao discurso médico e buscou alianças regionais e legislativas — conversou com David Uip, aliado de João Dória e coordenador do centro de Contingência do Coronavírus do governo no Estado de São Paulo; e com o presidente da Câmara e também botafoguense Rodrigo Maia — atiçando o presidente ao buscar caminhos para discutir soluções, inclusive com opositores. Acabou sendo demitido do cargo em 16 de abril, provando que nem mesmo um homem de confiança do presidente tem a confiança do presidente.
