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| O professor em pose durante uma atividade na Fábrica de Cultura - Foto: Arquivo Pessoal |
por Nathalia Simões
O militante, cineasta, professor e agora pré-candidato a prefeitura de São Paulo Renato Candido de Lima, 32, é formado em Audiovisual pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e nos concedeu uma entrevista abordando a vida política e os dilemas entre esquerda e direita.
O militante, cineasta, professor e agora pré-candidato a prefeitura de São Paulo Renato Candido de Lima, 32, é formado em Audiovisual pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e nos concedeu uma entrevista abordando a vida política e os dilemas entre esquerda e direita.
O que leva uma pessoa ser de esquerda ou de direita?
É uma boa pergunta. No que se configura hoje, diz respeito à como você lida com a questão do acúmulo de capital. O quanto você observa das pessoas acabarem trabalhando, trabalhando e não tendo retorno do que se trabalha. Tem uma vida devotada a trabalhar para os outros e não tendo retorno de quase nada.
O que a percebemos é que essa ideia que temos hoje, que configura esquerda e direita, diz respeito a uma ideia de que o capitalismo sempre existiu, ou essa ideia de que a mais valia, como diz o Karl Marx, fosse natural, e essa naturalização, inclusive no sentido religioso, com a teologia-calvina, coloca que se a pessoa é rica é porque ela teve fé, foi devota e tudo mais. Isso de certa forma é recente na humanidade, nesse sentido, nessa configuração que se define de esquerda, é lutar por humanidade, por algo que a gente é além dessa coisificação, que fazem da gente, da vida da gente.
O que leva o país a ser dividido entre direita e esquerda atualmente?
O país sempre foi dividido. Antes da política do PT, eu entrei em 2002 na USP e meu irmão entrou em 1996. A construção do senso de mérito é uma construção que se configura como eurocêntrica. Você não tem uma construção de mérito baseado em arquétipos, em pensamento indígenas, aqui no Brasil.
Quando você forma as instituições, o judiciário, o executivo e o legislativo — isso desde a independência — o poder moderador que era o rei, não se utilizou, não se consultou, não se perguntou para os povos negros que estavam aqui, para os indígenas, como que poderia se configurar essa relação de poder ou essa estruturação enquanto poderes na sociedade. Se perguntou? Não se perguntou. Então a gente é parte de um sistema escravocrata, no qual boa parcela das pessoas que aqui estão no cotidiano, nem humanos eram consideradas.
O Brasil seria um país branco, pois estas pessoas negras, oriundas da abolição, iam se casar com pessoas brancas. Os filhos dessas pessoas, desse encontro da branca e o negro ou o branco e a negra — que muitas vezes na nossa história era forçado, acho que quase todas as vezes — faria com que esse povo brasileiro se embranquecesse.Embranquecendo, se retiraria todo mal que representa a mancha do povo negro na história do Brasil e do povo indígena também.
Nesse sentido, João Batista de Lacerda colocou em uma frase que, em 100 anos, o Brasil se tornaria branco e civilizado tal qual como os países da Europa. Só que isso não aconteceu porque pretos e pardos, no que constitui no IBGE, é 54% desse país. Então sempre foi dividido, por mais que essa história colocada nos anos 1930 seja de conciliação, de que houve consenso nas relações. Na relação entre em quem estava escravizado e quem era o Senhor de engenho, o branco e a negra, sempre foi uma relação de conflito, vide Palmares por exemplo.
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| Renato durante a inscrição de sua pré-candidatura para prefeito de São Paulo - Crédito: Divulgação / PT |
Como você vê a esquerda atualmente?
Bom... vivemos os governos de Lula e Dilma e foram governos muito importantes, que nos quais se começou a observar... Não que ele se estruturaram nessa, como se fosse: "Agora é a vez dos índios, a vez dos negros". Foi muito difícil, isso vem de uma luta muito movimento negro. Desse pessoal da frente negra, toda a contratação se configura hoje com internet e acaba sendo um acirramento no qual muitas vezes quem se coloca como esquerda acaba não levando em conta. O popular, a gente pode observar como uma herança negra, herança indígena e que muitas vezes, não se encontra, não se identifica com o que seria um sentimento de esquerda.
Até porque também, as pessoas que querem crescer na vida, acabam acreditando na teoria da prosperidade. Pode perceber que essas pessoas,nas quebradas muitas vezes vai para uma igreja evangélica e acaba vendo sentido em uma teoria da prosperidade. Essas pessoas vão se identificar com ideais de direita, vão regrar o mundo de você... falar que tal coisa é pecado e fazer a pessoa acreditar que vai ter sucesso porque teve fé.
Essa ideia do cidadão de bem; ele é tão cidadão de bem que ele pode tudo, inclusive ser um mal, como os milicianos Então observo que o interessante, nesse momento, é que as contradições se agudizaram-se e afloraram.
Você comentou sobre o embranquecimento da sociedade. Esse fenômeno existe?
A gente observa. Mas, de certa forma, a gente vai acabar compreendendo o que é belo e capaz. Vai ter esse teor também, de que a pessoa negra não vai estar em tal lugar. Existe as duas faces do racismo; você objetifica ou você desumaniza.
A sociedade tem um preconceito de assumir a sua cor?
Sim e não, porque o outro movimento também tá aparecendo. Olha como a Globo se apropriou aí da imagem de atrizes negras, por exemplo. ‘Amor de Mãe’... essa novela tem a Jéssica Queiroz, ela faz uma personagem, Camila, uma professora. Nessa mesma novela tem a Érika Januza, que faz uma tenista. Essas personagens não estão baseados essencialmente em estereótipos, por mais mas não sejam os protagonistas. Têm outros personagens, a Taís Araújo, tem uma diversidade de mulheres negras ali. Nessa novela que a Globo entendeu que isso é uma fatia importante do mercado atualmente, então você precisa representar.
O embranquecimento existe, provavelmente dentro de lugares que se comungam a teoria da prosperidade como igrejas evangélicas, pentecostais e tudo mais. É muito provável que o sentimento de embranquecimento também esteja presente nas relações, mas isso tem mudado e, aliás, se a gente é 54% da população, é porque essa ideologia do embranquecimento, pelo menos até o momento, não deu certo.

